Egípcios e o complexo de colonizado

Desde que cheguei ao Egito, algo tem me surpreendido muito: o fato de muitos egípcios, sobretudo nas classes mais altas, renegar o seu próprio país e a sua própria cultura. Eles vivem em áreas nobres da cidade, dirigem belos carros, estudam em caríssimas universidades privadas, têm tudo para levar o país a melhores horizontes, mas vivem com as suas cabeças nos EUA e na Europa. É o famoso complexo de colonizado!

Sinceramente, jamais imaginei isso, com a imagem do país ligado à Revolução durante a Primavera Árabe e ao fato de os árabes serem muito orgulhosos de seu passado e de suas tradições.

A maior revolução que pode acontecer no Egito é os egípcios tomarem de fato as rédeas do país, ao invés de copiarem tudo de fora.

A maior revolução que pode acontecer no Egito é os egípcios tomarem de fato as rédeas do país, ao invés de copiarem tudo de fora.

Desde que pisei no Egito, tenho percebido que muitos egípcios se sentem “cool” andando com estrangeiros (não é só no Egito que isso acontece, mas o que há de especial nisso?), consumindo importados e adotando estilos de vida europeus e norte-americano.

Além disso, muitos egípcios também sentem vergonha da cultura popular egípcia, como comer koshary ou tammeya, ouvir as músicas shaaby…. E tenho lidado com reações como “tá brincando que gosta de ouvir essa porcaria?” ou “isso é música de classe baixa!”, referindo-se à shaaby. Eu não vim ao Egito para comer McDonald’s ou tomar café no Starbucks, posso fazer isso até no Brasil. Eu quero ver coisas egípcias, eu quero shisha, koshary  e outras coisas que só posso achar no Egito, assim como conhecer o Egito como realmente é: pegar micro-ônibus, comer nas ruas, pegar metros, trens, estar em contato com egípcios que vivem esta realidade do país.

É também curioso com muitos egípcios nas classes mais altas usam os estilos de vida europeu e norte-americano como um capital social, como um meio de se distinguir das outras classes. É também curioso notar que cafés e fast-foods como McDonald’s e Cilantro (uma rede de cafés egípcia) se posicionam como locais onde seus clientes podem viver a experiência de estar “fora do Egito”, em oposição à tradicional ahwa, onde se vai para tomar chá e fumar shisha/narguilé, lugar normalmente frequentado por homens. Normalmente não veem mulheres numa ahwa, mas em cafés com estilos ocidentais é possível ver mulheres fumando shisha e/ou cigarros (mulher fumar em público não é aceitável para muitos egípcios).

Entendo estes aspectos da cultura egípcia e respeito. Mas o Egito será um melhor país quando os egípcios buscarem soluções para seus problemas na sua própria cultura, ao invés de copiar e colar modelos de fora! O Egito pode ser um país moderno com shisha e koshary, eis a minha opinião!

Uma resposta em “Egípcios e o complexo de colonizado

  1. Querido, (em minha cidade se usa querido como um tratamento simpático para homens também), as elites são sempre eurocêntricas, eurófonas e eurófilas. Compõem um rede de opressão ao redor do mundo, infelzmente. Só acho graça do seu estranhamento. Aproveite para andar bastante. Um dia quero seguir seus passos neste lindo país africano!!!

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