O cliente quer comprar e o vendedor não quer vender

Quando ainda trabalhava na AIESEC em Florianópolis, num dia de Reunião Geral, lembro que um membro recém-chegado de 4 intercâmbios, ao comentar sobre os seus 7 meses na Índia, comentou sobre um choque cultural no seu trabalho (ele trabalhou com vendas): “o cliente quer comprar e o vendedor não quer vender!

Feira em Udaipur, Índia

Típico comércio de rua na Índia, na cidade de Udaipur.

É isso mesmo! A cultura de negócios na Índia é baseada na barganha, e até  fechar o preço justo, vai um bom tempo de conversa e até bate-boca… Seja ao pegar um auto-rickshaw, ao pagar o ônibus, ao comprar souvenirs, é barganhando que se faz negócios na terra do Gandhi. E estrangeiros precisam esforçar mais ainda, pois muitos indianos mantêm um pensamento implícito de que gringos devem ser sobretaxados. Em estabelecimentos como mercados e shopping centers, os produtos geralmente têm preços fixados nas embalagens (MRP – Maximum Retail Price), que é o máximo que o comerciante pode cobrar do cliente. Se não, seria preciso barganhar até um sabonete!

Interior de loja de tecidos em Jaipur, India

Loja de tecidos em Jaipur, Rajastão, Índia.

E se o vendedor não estiver a fim de vender, ou não for com a sua cara – vire a cara e procure outro! Mas por que raios isso? Eles não querem fazer dinheiro? Exato, devemos ter em mente que numa sociedade estratificada em castas riqueza e pobreza não são apenas econômicas. A casta delimita todo o círculo social do cidadão indiano: as pessoas com quem convive, a profissão, o casamento, a vida social…. E casta não se compra! O dinheiro por si só não muda a condição social de uma pessoa. Na Índia, tudo gira em torno de poder e conexões, que também são uma extensão da casta a que pertence uma família indiana.

Logo, entende-se o porquê de negociantes e prestadores de serviço não demonstrarem preocupação – e muito menos ambição – em fazer dinheiro, porque eles morrerão na mesma casta em que nasceram. Para muitos indianos, o dinheiro é simplesmente algo que flui de mão pra mão, um mecanismo para adquirir ou celebrar (bem do jeito que indiano gosta) o cotidiano com familiares e amigos. A solução é ter jogo de cintura, que a vida numa cultura diferente da qual fomos criados exige, e conviver com isso!