O desafio do choque cultural

Choque cultural, diferenças,  Ocidente e Oriente, mas o que a palavra Oriente remete a você? Seja sincero, pare, pense e reflita! Por quê? Com que no quê? Em quais fontes de informação?

Para algumas pessoas, Oriente remete à China, à Índia; para outras, a Japão ou a algum país árabe. Mas o fato é que a definição e a construção do tal do Oriente, se pararmos para pensar, se baseia em autores, estudiosos, artistas, filósofos, etc. de antigas potências coloniais tais quais Inglaterra e França, ou EUA desde a Segunda Guerra. Muitas das informações a respeito do Oriente se relacionam a interesses coloniais e imperialistas, e como consequência, contêm visões e percepções tendenciosas sobre as culturas do tal do Oriente. Ocidente costuma ser classificado como moderno, desenvolvido, civilizado, como modelo a ser seguido; e o Oriente, como retrógrado, bárbaro, subdesenvolvido…

Nossos pensamentos influenciam nossas percepções que, enfim, guiam nossas ações

Nossos pensamentos influenciam nossas percepções que, enfim, guiam nossas ações

O ponto a que quero chegar é que nós também assimilamos essa visão, muitas vezes sem nos darmos a mínima conta, e também percebemos diferentes povos e culturas (incluindo do Oriente) de uma forma tendenciosa.

E tendenciosamente, caímos na tentação de fazer comparações, novamente tendo Oriente e Ocidente como pano de fundo (sem também percebermos) quando nos vemos diante de diferentes modos de viver e diante de choques culturais.

E aí é que também filtramos choques culturais (e as nossas reações a estes choques) através daquela mesma visão tendenciosa…e ficamos presos num ciclo vicioso que nos impede de entender o porquê de tais diferenças. Agimos com base no que pensamos, pensamos com base nos nossos modelos mentais que foram construídos nas experiências e nos ensinamentos que tivemos. E mudar nossa forma de pensamento exige que olhemos a realidade à nossa volta com outras perspectivas, que nos mostrem diferentes possibilidades e, assim, abram caminhos para diferentes atitudes.

Como disse Albert Einstein, não podemos resolver um problema com base no mesmo pensamento que o criou. Logo, não podemos lidar com choques culturais com o mesmo pensamento que divide nossas perspectivas entre “nós” e “eles”. O nosso maior desafio acaba sendo desapegarmos de nossos pensamentos que dividem estas perspectivas. Entender o porquê das diferenças é o melhor caminho para que saibamos como reagir e lidar com quaisquer situações de choque cultural e evitar inconvenientes.

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5 minutos, 5 minutos indianos e 5 minutos egípcios

São 16:00 h e um indiano ou egípcio fala que vai chegar dentro de 5 minutos. A que horas você imagina que ele/ela chegará? Às 16:05 h? Hahaha, normalmente não.

Na lógica de muitos indianos ou egípcios, estes 5 minutos acabam se passando em 40 minutos, 1 hora, 2 horas ou muito mais que isso…Pontualidade não é comum em ambos os países. Mas por quê?

Porque na maior parte da Ásia e do Oriente Médio – e vamos incluir também Brasil e América Latina – as pessoas não têm uma percepção de tempo linear, não regulam a sua rotina com base em horários fixos. Em muitas destas culturas, momentos são desfrutados e vividos como únicos, e a vida – assim como as coisas mais simples na rotina de um cidadão – se leva ao sabor do destino ou do “maktub“. A vida é percebida como algo muito mais amplo que trabalho, estudos, compromissos… Ou seja, nessa percepção de tempo a vida não cabe numa agenda.

Na maior parte da Ásia e do Oriente Médio, o tempo passa ao sabor do destino e dos momentos

Na maior parte da Ásia e do Oriente Médio, o tempo passa ao sabor do destino e dos momentos

Da mesma forma, é interessante notar como a dinâmica tempo e rotina passa de um modo incontrolável. Imprevistos e surpresas acontecem a toda hora, nunca se sabe o que vai acontecer nas próximas horas, e nunca existe um dia igual ao outro, nunca mesmo! Rotina é algo que não existe!

Estrangeiros costumam não entender e ter dificuldades em se adaptar a essa diferente percepção de tempo, sobretudo europeus e norte-americanos. Reclamar e fazer julgamentos jamais serão caminhos para a solução, pelo contrário, levam ao isolamento da cultural local e a reações inconvenientes. Posso dizer que o melhor de tudo é surfar os imprevistos como faz qualquer pessoa que se criou naquela dinâmica. (…) Don’t you worry, don’t you worry child, See heaven’s got a plan for you! (…)

O cliente quer comprar e o vendedor não quer vender

Quando ainda trabalhava na AIESEC em Florianópolis, num dia de Reunião Geral, lembro que um membro recém-chegado de 4 intercâmbios, ao comentar sobre os seus 7 meses na Índia, comentou sobre um choque cultural no seu trabalho (ele trabalhou com vendas): “o cliente quer comprar e o vendedor não quer vender!

Feira em Udaipur, Índia

Típico comércio de rua na Índia, na cidade de Udaipur.

É isso mesmo! A cultura de negócios na Índia é baseada na barganha, e até  fechar o preço justo, vai um bom tempo de conversa e até bate-boca… Seja ao pegar um auto-rickshaw, ao pagar o ônibus, ao comprar souvenirs, é barganhando que se faz negócios na terra do Gandhi. E estrangeiros precisam esforçar mais ainda, pois muitos indianos mantêm um pensamento implícito de que gringos devem ser sobretaxados. Em estabelecimentos como mercados e shopping centers, os produtos geralmente têm preços fixados nas embalagens (MRP – Maximum Retail Price), que é o máximo que o comerciante pode cobrar do cliente. Se não, seria preciso barganhar até um sabonete!

Interior de loja de tecidos em Jaipur, India

Loja de tecidos em Jaipur, Rajastão, Índia.

E se o vendedor não estiver a fim de vender, ou não for com a sua cara – vire a cara e procure outro! Mas por que raios isso? Eles não querem fazer dinheiro? Exato, devemos ter em mente que numa sociedade estratificada em castas riqueza e pobreza não são apenas econômicas. A casta delimita todo o círculo social do cidadão indiano: as pessoas com quem convive, a profissão, o casamento, a vida social…. E casta não se compra! O dinheiro por si só não muda a condição social de uma pessoa. Na Índia, tudo gira em torno de poder e conexões, que também são uma extensão da casta a que pertence uma família indiana.

Logo, entende-se o porquê de negociantes e prestadores de serviço não demonstrarem preocupação – e muito menos ambição – em fazer dinheiro, porque eles morrerão na mesma casta em que nasceram. Para muitos indianos, o dinheiro é simplesmente algo que flui de mão pra mão, um mecanismo para adquirir ou celebrar (bem do jeito que indiano gosta) o cotidiano com familiares e amigos. A solução é ter jogo de cintura, que a vida numa cultura diferente da qual fomos criados exige, e conviver com isso!