O melhor do Egito são os egípcios

Ao pensar em desenvolver o turismo num determinado local, muito se pensa logo em hotéis, resorts boates, souvenirs, eventos… Mas a um ponto crucial costuma não ser dada atenção: as pessoas que vivem no local.

Qualquer lugar é o reflexo de sua gente, por bem ou por mal, e não do que tenta aparentar através de mídia e estrutura imobiliária. Um lugar não preciso ser branco, dourado e cercado de grifes famosas para ser interessante, ao contrário do que muita gente imbecil pensa – a exemplo da tal de Beverly Hills catarinense.

É impossível não notar a receptividade por parte da maioria dos egípcios

É impossível não notar a receptividade por parte da maioria dos egípcios

Primeiro de tudo, um lugar para ser atrativo precisa de pessoas interessantes, que tenham história, tradições e lições a mostrar aos visitantes – eis o que aprendi na Índia e no Egito. Precisa de pessoas que saibam lidar com o diferente, ao invés de bairristas e provincianos que se acham os “donos do pedaço”; que saibam mostrar ao mundo quem realmente são.

A receptividade dos egípcios é o que mais me marcou no Egito, ao invés das pirâmides, do Rio Nilo, das belezas de Alexandria, dos desertos e de tudo o mais que vi no país. Ao perguntar um endereço, qual ônibus pegar, qual estação de metrô, pude ver centenas de vezes o quanto orgulham de receber estrangeiros, mesmo que o país esteja vivendo um momento difícil.

E ao ver um estrangeiro se esforçando em aprender o árabe, então, sem comentários! Ser recebido e tratado desta forma aniquila de vez qualquer imagem negativa que queiram veicular sobre o Egito. Visitar este país é uma lição básica para se aprender o que é turismo.

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Egípcios e o complexo de colonizado

Desde que cheguei ao Egito, algo tem me surpreendido muito: o fato de muitos egípcios, sobretudo nas classes mais altas, renegar o seu próprio país e a sua própria cultura. Eles vivem em áreas nobres da cidade, dirigem belos carros, estudam em caríssimas universidades privadas, têm tudo para levar o país a melhores horizontes, mas vivem com as suas cabeças nos EUA e na Europa. É o famoso complexo de colonizado!

Sinceramente, jamais imaginei isso, com a imagem do país ligado à Revolução durante a Primavera Árabe e ao fato de os árabes serem muito orgulhosos de seu passado e de suas tradições.

A maior revolução que pode acontecer no Egito é os egípcios tomarem de fato as rédeas do país, ao invés de copiarem tudo de fora.

A maior revolução que pode acontecer no Egito é os egípcios tomarem de fato as rédeas do país, ao invés de copiarem tudo de fora.

Desde que pisei no Egito, tenho percebido que muitos egípcios se sentem “cool” andando com estrangeiros (não é só no Egito que isso acontece, mas o que há de especial nisso?), consumindo importados e adotando estilos de vida europeus e norte-americano.

Além disso, muitos egípcios também sentem vergonha da cultura popular egípcia, como comer koshary ou tammeya, ouvir as músicas shaaby…. E tenho lidado com reações como “tá brincando que gosta de ouvir essa porcaria?” ou “isso é música de classe baixa!”, referindo-se à shaaby. Eu não vim ao Egito para comer McDonald’s ou tomar café no Starbucks, posso fazer isso até no Brasil. Eu quero ver coisas egípcias, eu quero shisha, koshary  e outras coisas que só posso achar no Egito, assim como conhecer o Egito como realmente é: pegar micro-ônibus, comer nas ruas, pegar metros, trens, estar em contato com egípcios que vivem esta realidade do país.

É também curioso com muitos egípcios nas classes mais altas usam os estilos de vida europeu e norte-americano como um capital social, como um meio de se distinguir das outras classes. É também curioso notar que cafés e fast-foods como McDonald’s e Cilantro (uma rede de cafés egípcia) se posicionam como locais onde seus clientes podem viver a experiência de estar “fora do Egito”, em oposição à tradicional ahwa, onde se vai para tomar chá e fumar shisha/narguilé, lugar normalmente frequentado por homens. Normalmente não veem mulheres numa ahwa, mas em cafés com estilos ocidentais é possível ver mulheres fumando shisha e/ou cigarros (mulher fumar em público não é aceitável para muitos egípcios).

Entendo estes aspectos da cultura egípcia e respeito. Mas o Egito será um melhor país quando os egípcios buscarem soluções para seus problemas na sua própria cultura, ao invés de copiar e colar modelos de fora! O Egito pode ser um país moderno com shisha e koshary, eis a minha opinião!

Não tem cerveja, dá-le shisha!

Como em muitos países muçulmanos, o consumo de álcool no Egito não é algo

Interior de uma ahwa em Alexandria

Interior de uma ahwa em Alexandria

amplamente adotado. Não digo que não haja consumo de álcool, que é bem visível entre os jovens, mas não é algo que a maioria dos egípcios se sente à vontade de fazer publicamente.

Para se ter uma ideia, em Cairo é popular um serviço de tele-entrega de bebidas alcoólicas, em sacos pretos para esconder o conteúdo! É galera, fazer do constrangimento de muita gente comprar álcool um negócio foi uma sacada e tanto, Drink’s é o nome da empresa.

Bom, mas como não se vê botecos no Egito, a válvula de escape diária são as ahwa (na verdade ahawi, que é o plural no árabe egípcio), que são os cafés onde o pessoal vai tomar bebidas quentes e fumar shisha, o famoso narguilé (termo usado na Líbano e na Síria).

Ahwa em Cairo

Ahwa em Cairo

Na maioria das “ahwa“, vê-se um monte de homens, o que indica que é um espaço masculino, vamos assim dizer. É onde muitos egípcios se encontram com os amigos, se sentem livres pra falar um monte de merda, falar de futebol, jogar taula (ou gamão), assistir jogos de futebol….Mulheres em ahwa, apenas nas ahwa mais cool e nos cafés, que já são um território das classes altas.

Mas o que vem me surpreendendo é que a ahwa é mais que um local de socialização, é uma instituição presente diariamente na vida dos egípcios. Muitos egípcios frequentam a ahwa ou todo santo dia ou quase todos os dias, sério mesmo! Gastam algo entre 10 e 20 libras egípcias por dia (pode ser mais ou menos que essa quantia, dependendo do lugar que frequenta o cidadão), que significam pelo menos 10% de seus gastos mensais, sem brincadeira!

Então, já que não a ahwa não tem cerveja, dá-le (como diria o rapper Pitbull) shisha!