A comida na Índia

Como mais de 80% da população indiana segue a religião hindu, predomina no país a alimentação vegetariana, como prega a religião hinduísta. O mesmo vale para os sikhs, seguidores do sikhismo e que representam 2% da população indiana; logo, fica a dica para quem for ao estado do Punjab, onde eles se concentram.

Aos carnívoros de plantão, como eu, só resta se contentar com o frango disponível em alguns restaurantes e em áreas muçulmanas. Mas nada de carne suína ou bovina (por mais que se vejam vacas por todos os lados)!

Chapati (semelhante ao pão sírio), 2 tipos de molho bem temperados e um doce para acompanhar

Chapati (semelhante ao pão sírio), 2 tipos de molho bem temperados e um doce para acompanhar

No almoço e na janta, os indianos costumam comer pequenas porções divididas da seguinte forma: algum vegetal cozinhado com molho, chapati (semelhante ao pão sírio, mas bem fino) e algum doce ou salgado. Mas por que pequenas porções? Porque a comida indiana em geral é oleosa e bem temperada! Dá-le tempero!

A comida temperada costuma ser um dos principais choques culturais que estrangeiros sentem na Índia, porque o tempero é forte mesmo e a quantidade…. Eu que sou fraco para tempero que o diga! Para quem não é habituado a comer temperos, evitar as comidas fortemente temperadas e nunca esquecer o copo d’água para acompanhar a refeição.

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Índia – Apego à família

Uma das coisas que mais me chamou atenção durante o tempo em que estive na Índia foi o quanto os indianos são apegados às suas famílias. E como são!

Na foto, avó e neto. Ambos são da família que mantém um dos principais templos de Jaipur há mais de 300 anos

Na foto, avó e neto. Ambos são da família que mantém um dos principais templos de Jaipur há mais de 300 anos

A sociedade indiana é centrada na família, cujo nome sinaliza a casta a que pertence, assim como o poder e as conexões possibilitadas pela casta. Na Índia, não se vê a ideia de “negócios à parte”; pelo contrário, amizade, negócios, política e sobretudo, famílias se misturam e formam as teias de conexões que regem as “regras” no país.

Famílias controlam a política (a exemplo do nome Gandhi), os negócios e até Bollywood! Basta olhar os astros e estrelas com nomes Kapoor, Khan, Bacchan, entre outros que compõem os clãs da indústria de bollywood.

A maioria dos indianos jamais saiu e jamais sairá de seu país devido ao apego à família. Alguns me perguntaram como (nós estrangeiros) saímos de nosso país, longe de casa por um bom tempo… Para muitos indianos, isso nem sequer passa pela cabeça, não temos a ideia de quanto é traumático para eles ficar longe da família, nem que seja por um curto espaço de tempo. Não vamos nem falar então de conflitos e pressões familiares…

Nas casas indianas, costumam viver a família núcleo e a família extensa, com tios e tias, primos e primas e avós, geralmente paternos; e assim que casam, as mulheres passam a viver com a família do marido. Nas parcelas mais ricas da população, vêem-se casas de 3, 4 ou 5 andares; e nas mais pobres, dezenas de pessoas dividindo um pequeno espaço. Até nas metrópoles, é possível ver famílias ricas comprando andares e até prédios inteiros. Assim é a vida, opa indian style!

O casamento na Índia

O casamento é um dos pontos mais interessantes da cultura indiana aos olhos de um estrangeiro. Por quê? Porque a concepção de relacionamento e amor para muitos indianos é muito diferente da qual estamos acostumados, como quase tudo na Índia.

Noivos em casamento sikh

O casamento é umas das celebrações mais importantes para os indianos

Os casamentos normalmente são arranjados pelas famílias dos noivos, e as despesas, pagas pela família da noiva, que vai viver com a família do marido após a cerimônia. Casta (entende-se condição social), etnia ou origem regional, qualidades pessoais e afinidades são critérios decisivos na escolha de um – ou uma – pretendente. Não é normal ver casamentos entre noivos de diferentes castas, ou de diferentes etnias ou regiões. Por exemplo, punjabi casa com punjabi, rajastani com rajastani, bengali com bengali e por aí vai…

Convidados em casamento hindu

Os casamentos na Índia são realizados em espaços com grandes jardins e com muitos convidados

O amor, na concepção de muitos indianos, é algo que vem com o tempo assim que o casal passa a viver junto. Não dá para comparar com a nossa concepção de amor e relacionamento! É possível casamento sem ser arranjado pela família? Sim, é possível, porém indianos de tão apegados às suas famílias não tem a coragem de encarar a desaprovação familiar. Vi casos em que a família deixou escolher o pretendente, e foi aquela história “não achei nenhum interessante, então meus pais podem escolher por mim…”. Tenho amigos que sabem que vão casar em no máximo 4 ou 5 anos, é o que se espera na cultura deles.

Tive a oportunidade de ir a casamentos muçulmano, hindu e sikh; as 3 principais religiões do país. A cerimônia muda um pouco conforme a religião, etnia ou região; mas basicamente é dividida em 3 partes: chegada dos noivos, hora de comer e cerimônia. As cerimônias costumam ser realizadas em grandes jardins, com centenas ou milhares de convidados, visto que é um evento importante para os indianos.

Noivos em casamento hindu

Após a cerimônia, os noivos são cercados de flashes!

Foi uma das melhores experiências que tive na Índia! Cores, celebração, música, dança, doces (que tanto adoro!)… Mas quando um indiano me pergunta “André, quando você vai casar?”, só posso responder “nem eu mesmo sei! Ahahaha!”

Bollywood e cricket: 2 paixões nacionais

Você sabia que Bollywood é a maior indústria de cinema do mundo? Fico devendo estatísticas, mas com aproximadamente 1000 produções cinematográficas por ano, deixa Hollywood comendo poeira sem nenhum esforço.  O termo bollywood se refere às produções veiculados no idioma hindi, popularmente conhecido como hindi cinema. O termo é uma soma de Bombay (denominação britânica de Mumbai) e Hollywood.

Cenas do filme Cocktail

Cena do filme Cocktail. Cinema na Índia é como novela no Brasil.

Com ingressos a preços acessíveis (na maioria dos cinemas por não mais que 120 rúpias nos pacotes mais caros, 2 dólares e alguns centavos), cinema cheio é rotina por toda Índia, sobretudo quando se trata de produções com os superstars, entre eles Amitab Bacchan, Sha Rukh Khan, Kareena Kapoor, Salman Khan. Basta uma cena aparecendo um dos astros, a platéia vai à loucura com gritos! Entrar no cinema no dia de lançamento dos filmes mais esperados do ano então… As grandes produções giram em torno de 20 milhões de dólares, com enredos melodramáticos e com muitos musicais ao bom estilo indiano.

Cartaz de fime na língua kannada

As indústrias de cinema regionais também são fortes na Índia. Cartaz de um filme na língua kannada em Bangalore.

Bollywood não é a única indústria cinematográfica na Índia, indústrias regionais com produções em línguas locais também são populares, como em língua punjabi, kannada, tamil, entre algumas das outras 23 línguas oficiais que há no país.  Mas bollywood é como as novelas no Brasil, dita os hits do momento: música, dança, roupas, penteados, acessórios, etc…

Bate bola de criket

Por todo o país é possível ver pessoas jogando cricket

Quanto ao esporte, o mais popular de todos na Índia é o cricket. Os indianos são tão fanáticos por este esporte quanto nós brasileiros por futebol! Jogam cricket no cercado de casa, dentro de casa, nas ruas, nos parques, onde quer que seja possível! Entre os principais astros do esporte estão Sachin Tendulkar (apontado como o maior de todos os tempos), Mahindra Dhoni e Virat Kholi.

Partida da IPL

As partidas da IPL são transmitidas nacionalmente por TV e por internet.

A IPL (Indian Premier League) é o principal campeonato de cricket do mundo,  inclusive conta com jogadores de outros países e as partidas transmitidas são assistidas massivamente. Como se joga criket? A hahaha, só sei lançar a bola e rebater, as regras são complexas demais para explicar neste post…

Ativar o próprio destino

Bom, este post é uma tradução de um artigo que tinha escrito para wespeaknews.com, site de citizen journalism em que trabalhei na Índia.

A sociedade indiana tem atravessado muitas mudanças nos últimos 20 anos, especialmente com a abertura do país através da liberalização econômica. Mais que proporcionar acesso a bens e serviços para muitos indianos, a liberalização também abriu a cabeça de muitos indianos.

Como bem descreve o especialista em marketing Dheeraj Sinha no seu livro Consumer India – inside the indian mind and wallet, a cultura indiana tem sido guiada tradicionalmente – e de uma forma incontestável por milênios – por valores como espiritualidade sobre o materialismo, substância sobre o superficial, ser correto ao invés de oportunista; os quais refletem a prevalência do pensamento brâmane (o mais alto grupo de casta, cuja função social é manter a custódia dos sacramentos religiosos) na sociedade indiana.

Mas ao longo da liberalização comercial, o mercado consumidor na Índia tem encontrado espaço no pensamento xátria (grupo de casta ao qual pertence os guerreiros e militares) como propulsor, assim como as mudanças sociais e culturais que emergiram no país nos últimos anos. Sobre o pensamento xátria, a sociedade indiana vem se abrindo a valores como competitividade, glória, honra, sucesso, tomar iniciativa; possível de perceber na forma como muitas marcas e empresas se comunicam atualmente com os seus públicos, sobretudo com os jovens.

Interior de uma casa noturna em Mumbai

Balada em Mumbai. Embora não seja parte da cultura indiana, as baladas nos centros urbanos é uma evidência da Índia moderna.

E como parte dessa migração gradual de paradigmas – digamos assim -do pensamento brâmane ao pensamento xátria, é possível ver, ainda que sutil, uma reinterpretação do conceito de “karma“. Tal reinterpretação significa adotar este conceito numa perspectiva ativa, ao invés da tradicional perspectiva passiva. A idéia “karma” continua ligada ao destino de uma pessoa, mas este mesmo destino pode ser alterado assim que uma nova perspectiva abre caminho a um novo leque de ações que, enfim, possibilitam um diferente destino.

Um dos exemplos dessa reinterpretação do “karma” é visto entre muitos jovens indianos, especialmente nos centros urbanos, que mostram a sensação de tomar as rédeas do próprio destino, de não enxergar limitações impostas pela casta, por exemplo. A idéia de ativar o próprio destino através de ações individuais é um dos principais códigos culturais emergentes na atual sociedade indiana. Com oportunidades que as gerações anteriores nem sequer poderiam sonhar, os jovens indianos não vêem limitações para realizar seus sonhos e viver a sua vida fora do círculo e das pressões familiares.

O cliente quer comprar e o vendedor não quer vender

Quando ainda trabalhava na AIESEC em Florianópolis, num dia de Reunião Geral, lembro que um membro recém-chegado de 4 intercâmbios, ao comentar sobre os seus 7 meses na Índia, comentou sobre um choque cultural no seu trabalho (ele trabalhou com vendas): “o cliente quer comprar e o vendedor não quer vender!

Feira em Udaipur, Índia

Típico comércio de rua na Índia, na cidade de Udaipur.

É isso mesmo! A cultura de negócios na Índia é baseada na barganha, e até  fechar o preço justo, vai um bom tempo de conversa e até bate-boca… Seja ao pegar um auto-rickshaw, ao pagar o ônibus, ao comprar souvenirs, é barganhando que se faz negócios na terra do Gandhi. E estrangeiros precisam esforçar mais ainda, pois muitos indianos mantêm um pensamento implícito de que gringos devem ser sobretaxados. Em estabelecimentos como mercados e shopping centers, os produtos geralmente têm preços fixados nas embalagens (MRP – Maximum Retail Price), que é o máximo que o comerciante pode cobrar do cliente. Se não, seria preciso barganhar até um sabonete!

Interior de loja de tecidos em Jaipur, India

Loja de tecidos em Jaipur, Rajastão, Índia.

E se o vendedor não estiver a fim de vender, ou não for com a sua cara – vire a cara e procure outro! Mas por que raios isso? Eles não querem fazer dinheiro? Exato, devemos ter em mente que numa sociedade estratificada em castas riqueza e pobreza não são apenas econômicas. A casta delimita todo o círculo social do cidadão indiano: as pessoas com quem convive, a profissão, o casamento, a vida social…. E casta não se compra! O dinheiro por si só não muda a condição social de uma pessoa. Na Índia, tudo gira em torno de poder e conexões, que também são uma extensão da casta a que pertence uma família indiana.

Logo, entende-se o porquê de negociantes e prestadores de serviço não demonstrarem preocupação – e muito menos ambição – em fazer dinheiro, porque eles morrerão na mesma casta em que nasceram. Para muitos indianos, o dinheiro é simplesmente algo que flui de mão pra mão, um mecanismo para adquirir ou celebrar (bem do jeito que indiano gosta) o cotidiano com familiares e amigos. A solução é ter jogo de cintura, que a vida numa cultura diferente da qual fomos criados exige, e conviver com isso!