O que um trânsito caótico pode te ensinar?

À primeira vista, pode ser assustador, sobretudo para aqueles que não estão acostumados a ver…. A ver o quê? Carros, motos, bicicletas, elefantes, camelos; e daí? Quem já esteve na Índia e no Egito (ou em algum outro país que tenha uma realidade semelhante) sabe o que estou falando.

O trânsito é caótico! Nenhuma queixa do meu lado, pois reclamar não faz parte das minhas atitudes, eu até sinto saudade das buzinas e da aparente falta de ordem do trânsito em 2 países que marcaram a minha vida.

Junto à saudade, vieram as lições aprendidas ao refletir minha posição e minhas atitudes naquele trânsito doido e excelentes reflexões que fazem um perfeito paralelo às nossas atitudes para com as nossas vidas. Como assim?! Então, vamos refletir:

  1. Oportunidades à vista: você pretende ir do ponto A ao ponto B. Independente de simplesmente atravessar a rua, de percorrer quilômetros no trajeto casa-trabalho, você tem um objetivo de chegar ao seu destino pretendido, certo?  Num paralelo com a sua vida, você sabe o que pretende conquistar para você viver como sonha? Visualizar os seus objetivos é o primeiro e mais importante passo!
  1. Corra os riscos:  Mas… Ao ver todos os tipos de veículos sem nenhuma ordem, ou aparente falta de ordem num conceito ocidental, você sente medos: de ser atropelado, de não conseguir sair do meio da rua, etc.  Os inúmeros veículos e quaisquer elementos que você ver no meio do caminho lembram as pressões, os desencorajamentos, as dificuldades, os imprevistos, etc. E aí, vai tremer? Vai deixar de buscar os seus objetivos?
  1. Tudo em perfeita ordem: você atravessa a rua em meio a carros, autorickshaws, elefantes, camelos, ônibus, motos, etc. e chega aonde pretendia. E depois de chegar, valeram aqueles medos antes do primeiro passo? À medida que este hábito é internalizado na sua rotina, passa a ser a coisa mais normal do mundo.

Assim é o mundo e a vida. Milhares de movimentos individuais que, aparentemente caóticos e sem direção, formam uma perfeita e harmônica ordem. Algo que pode ser resumido na frase que li no livro Work the system de Sam Carpenter de Henry Miller: “Confusão é uma palavra que inventamos para uma ordem que não entendemos.”

Tudo é uma questão de perspectiva, inclusive caos e ordem. Entenda seus objetivos, os caminhos que você precisa percorrer e tudo fluirá naturalmente na hora certa!

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Por que viver num país emergente?

Muitos brasileiros vão para a Europa e lá aprendem a usar o transporte público, a enxergar como é viver diante de um menor abismo social, a viver de uma forma mais austera, a deixar de lado os padrões supérfluos da classe média brasileira, entre outras tantas descobertas. Algo que à primeira vista é lindo e maravilhoso.

Mas eu pensei, e pra quem se acostumou com Índia e Egito? De todos os países que visitei até agora, estes 2 foram o que mais me marcaram. Muitos me vêem como maluco e não estou nem aí para opiniões alheias… Fui a ambos os países porque eu quis, jamais reclamei de poeira, do calor entre 45ºC e 50ºC, do frio do deserto, das realidades nada glamourosas à minha volta.

Eu no Festival de Navatri, uma das tantas experiências que vivi na Índia

Eu no Festival de Navatri, uma das tantas experiências que vivi na Índia

Mas vou responder porque viver na Índia e no Egito foram experiências marcantes e fez com que eu criasse raízes em ambos os países.

Aprendi que a vida é algo imprevisível, e eis a graça de viver. A vida não pode ser reduzida a meros números, horas, minutos e segundos. Não saber o que acontecerá daqui a 1 hora (e menos ainda amanhã) nos livra de quaisquer apegos e medos, nos liberta para o que der e vier e faz com que ouçamos as nossas próprias vozes.

Descobri que somos o que pensamos! Algo tão simples, e você precisou atravessar o mundo pra isso? Sim, porque experiência apenas obtemos quando sentimos na pele, e não dando sermões e lição de moral por aí afora. Em meio ao que conceituamos como as piores condições de vida, vi pessoas sendo realmente felizes,  dando duro rumo aos seus sonhos e ambições (quantas pessoas abrem mão dos sonhos em nome de conforto, status, pressões externas, o que seja?), não reclamando e nem jorrando raiva por pequenas coisas.

Bate-papo, reflexão, estar com os amigos: esse é contexto da shisha

Bate-papo, reflexão, estar com os amigos: esse é contexto da shisha

Senti na pele que a vida pulsa em todas as nossas atitudes diárias! Seja batendo boca ao barganhar, buscando alternativas quando ouvimos um não à nossa frente ou diante de um diário imprevisto; a vida pulsa de fato quando não perdemos tempo enganando a nós mesmos!

Tive lições práticas de hospitalidade, até de pessoas que não conheço.  Tomando um chá, uma cerveja, fumando uma shisha (o famoso narguile, que tanto adoro!) ou simplesmente pedindo uma ajuda a desconhecidos, vivi muitas das simples experiências que marcaram as minhas andanças! Porque atingimos o nosso melhor potencial quando deixamos de lado mesquinharias, quando percebemos que somos apenas mais um num universo que vai continuar mesmo que morra amanhã.

Visitei lugares extraordinários! Não há fotos no Facebook que possam descrever os aprendizados que obtive ao me colocar diante de experiências, pessoas, idiomas, histórias, tradições inusitados. Torre Eifel, Big Ben, Coliseu, para monumentos, uma foto basta! A experiência de se pôr em outras perspectivas é indescritível!

Na volta ao Brasil, vieram as saudades da Índia e do Egito, que mato frequentemente mantendo contato com os amigos que lá estão, preparando a chai indiano e a shisha do jeito egípcio. Irei muitas vezes a estes 2 países ao longo da minha vida.  Mas o melhor a ser feito é tirar partido das mudanças que obtive. Os resultados, eu mesmo descobrirei daqui pra frente.

Microbus: as artérias das cidades egípcias

Como muitas metrópoles mundo afora, Cairo e Alexandria tem um trânsito intenso e congestionado. Ainda assim, o transporte público em ambas as cidades é melhor que o de muitas cidades brasileiras.

Um papel importante no transporte público em Cairo e em Alexandria, assim como em outras cidades egípcias, é feito pelos micro-ônibus; ou microbus ou minibus como chamam os egípcios, aquelas vans em cor branca e azul semelhante à Topic.

Típicos micro ônibus utilizados no Egito

Típicos micro ônibus utilizados no Egito

O metrô em Cairo cobre apenas uns 15% da cidade, as linhas de ônibus se concentram nas áreas centrais e os tuk-tuk (os autorickshaws indianos) se restringem nas periferias em volta da área central. Então, os micro-ônibus são as artérias das cidades egípcias, pois ligam as diversas partes de um bairro ao “centrinho” do bairro, assim como às outras áreas da cidade a um preço barato e rápido.

Contudo, o mais curioso é a forma de pagamento dentro de um micro-ônibus. Cada passageiro paga (normalmente em moedas) a quantia proporcional à distância diretamente ao motorista. O dinheiro passa de mão em mão até chegar a alguém lá da frente que confere a quantia de dinheiro e o número de passageiros.

Então, nos vemos até o próximo microbus, opa egyptian style! Maa salam!

Egito: álcool e lição de empreendedorismo

Como em muitos países muçulmanos, o consumo de álcool no Egito é cercado de tabus sociais e religiosos.

Não se compram bebidas alcóolicas no mercado, por exemplo. A comercialização de

Logotipo da rede de lojas Drinkies, que soube capitalizar o tabu social em volta do consumo de álcool

Logotipo da rede de lojas Drinkies, que soube capitalizar o tabu social em volta do consumo de álcool

bebidas alcóolicas se restringe a estabelecimentos licenciados, lojas especializadas, bares/boates e hotéis. E não pega bem aos olhos de muitos egípcios consumir ou carregar garrafas de bebidas alcóolicas em público, ainda mais quando se trata de mulheres…Na cabeça de muitos egípcios, isto não é coisa de mulher decente, é uma sociedade bem conservadora neste ponto!

Foi aí que uma empresa chamada

Motocicletas que fazem as tele-entregas de bebidas

Motocicletas que fazem as tele-entregas de bebidas

Drinkies encontrou uma grande oportunidade de negócios: tele-entrega de bebidas alcóolicas que possibilita a compra e o consumo longe de quaisquer constrangimentos. Mais um dos tantos exemplo de empreendedorismo driblando tabus sociais!

O melhor do Egito são os egípcios

Ao pensar em desenvolver o turismo num determinado local, muito se pensa logo em hotéis, resorts boates, souvenirs, eventos… Mas a um ponto crucial costuma não ser dada atenção: as pessoas que vivem no local.

Qualquer lugar é o reflexo de sua gente, por bem ou por mal, e não do que tenta aparentar através de mídia e estrutura imobiliária. Um lugar não preciso ser branco, dourado e cercado de grifes famosas para ser interessante, ao contrário do que muita gente imbecil pensa – a exemplo da tal de Beverly Hills catarinense.

É impossível não notar a receptividade por parte da maioria dos egípcios

É impossível não notar a receptividade por parte da maioria dos egípcios

Primeiro de tudo, um lugar para ser atrativo precisa de pessoas interessantes, que tenham história, tradições e lições a mostrar aos visitantes – eis o que aprendi na Índia e no Egito. Precisa de pessoas que saibam lidar com o diferente, ao invés de bairristas e provincianos que se acham os “donos do pedaço”; que saibam mostrar ao mundo quem realmente são.

A receptividade dos egípcios é o que mais me marcou no Egito, ao invés das pirâmides, do Rio Nilo, das belezas de Alexandria, dos desertos e de tudo o mais que vi no país. Ao perguntar um endereço, qual ônibus pegar, qual estação de metrô, pude ver centenas de vezes o quanto orgulham de receber estrangeiros, mesmo que o país esteja vivendo um momento difícil.

E ao ver um estrangeiro se esforçando em aprender o árabe, então, sem comentários! Ser recebido e tratado desta forma aniquila de vez qualquer imagem negativa que queiram veicular sobre o Egito. Visitar este país é uma lição básica para se aprender o que é turismo.

Egípcios e o complexo de colonizado

Desde que cheguei ao Egito, algo tem me surpreendido muito: o fato de muitos egípcios, sobretudo nas classes mais altas, renegar o seu próprio país e a sua própria cultura. Eles vivem em áreas nobres da cidade, dirigem belos carros, estudam em caríssimas universidades privadas, têm tudo para levar o país a melhores horizontes, mas vivem com as suas cabeças nos EUA e na Europa. É o famoso complexo de colonizado!

Sinceramente, jamais imaginei isso, com a imagem do país ligado à Revolução durante a Primavera Árabe e ao fato de os árabes serem muito orgulhosos de seu passado e de suas tradições.

A maior revolução que pode acontecer no Egito é os egípcios tomarem de fato as rédeas do país, ao invés de copiarem tudo de fora.

A maior revolução que pode acontecer no Egito é os egípcios tomarem de fato as rédeas do país, ao invés de copiarem tudo de fora.

Desde que pisei no Egito, tenho percebido que muitos egípcios se sentem “cool” andando com estrangeiros (não é só no Egito que isso acontece, mas o que há de especial nisso?), consumindo importados e adotando estilos de vida europeus e norte-americano.

Além disso, muitos egípcios também sentem vergonha da cultura popular egípcia, como comer koshary ou tammeya, ouvir as músicas shaaby…. E tenho lidado com reações como “tá brincando que gosta de ouvir essa porcaria?” ou “isso é música de classe baixa!”, referindo-se à shaaby. Eu não vim ao Egito para comer McDonald’s ou tomar café no Starbucks, posso fazer isso até no Brasil. Eu quero ver coisas egípcias, eu quero shisha, koshary  e outras coisas que só posso achar no Egito, assim como conhecer o Egito como realmente é: pegar micro-ônibus, comer nas ruas, pegar metros, trens, estar em contato com egípcios que vivem esta realidade do país.

É também curioso com muitos egípcios nas classes mais altas usam os estilos de vida europeu e norte-americano como um capital social, como um meio de se distinguir das outras classes. É também curioso notar que cafés e fast-foods como McDonald’s e Cilantro (uma rede de cafés egípcia) se posicionam como locais onde seus clientes podem viver a experiência de estar “fora do Egito”, em oposição à tradicional ahwa, onde se vai para tomar chá e fumar shisha/narguilé, lugar normalmente frequentado por homens. Normalmente não veem mulheres numa ahwa, mas em cafés com estilos ocidentais é possível ver mulheres fumando shisha e/ou cigarros (mulher fumar em público não é aceitável para muitos egípcios).

Entendo estes aspectos da cultura egípcia e respeito. Mas o Egito será um melhor país quando os egípcios buscarem soluções para seus problemas na sua própria cultura, ao invés de copiar e colar modelos de fora! O Egito pode ser um país moderno com shisha e koshary, eis a minha opinião!

Não tem cerveja, dá-le shisha!

Como em muitos países muçulmanos, o consumo de álcool no Egito não é algo

Interior de uma ahwa em Alexandria

Interior de uma ahwa em Alexandria

amplamente adotado. Não digo que não haja consumo de álcool, que é bem visível entre os jovens, mas não é algo que a maioria dos egípcios se sente à vontade de fazer publicamente.

Para se ter uma ideia, em Cairo é popular um serviço de tele-entrega de bebidas alcoólicas, em sacos pretos para esconder o conteúdo! É galera, fazer do constrangimento de muita gente comprar álcool um negócio foi uma sacada e tanto, Drink’s é o nome da empresa.

Bom, mas como não se vê botecos no Egito, a válvula de escape diária são as ahwa (na verdade ahawi, que é o plural no árabe egípcio), que são os cafés onde o pessoal vai tomar bebidas quentes e fumar shisha, o famoso narguilé (termo usado na Líbano e na Síria).

Ahwa em Cairo

Ahwa em Cairo

Na maioria das “ahwa“, vê-se um monte de homens, o que indica que é um espaço masculino, vamos assim dizer. É onde muitos egípcios se encontram com os amigos, se sentem livres pra falar um monte de merda, falar de futebol, jogar taula (ou gamão), assistir jogos de futebol….Mulheres em ahwa, apenas nas ahwa mais cool e nos cafés, que já são um território das classes altas.

Mas o que vem me surpreendendo é que a ahwa é mais que um local de socialização, é uma instituição presente diariamente na vida dos egípcios. Muitos egípcios frequentam a ahwa ou todo santo dia ou quase todos os dias, sério mesmo! Gastam algo entre 10 e 20 libras egípcias por dia (pode ser mais ou menos que essa quantia, dependendo do lugar que frequenta o cidadão), que significam pelo menos 10% de seus gastos mensais, sem brincadeira!

Então, já que não a ahwa não tem cerveja, dá-le (como diria o rapper Pitbull) shisha!