Corrupção na Índia

Quando se pergunta qual o maior problema da Índia, muita gente pensa automaticamente nas seguintes respostas: pobreza, miséria… Não há como negar que a pobreza no país é crônica e evidente em todas as ruas, mas o maior problema de todos na Índia é a corrupção!

A corrupção por lá não é grande, é massiva! Na política, a roubalheira está no mesmo nível que se vê no Brasil (e pior em ambos os casos é impossível), mas também se espalha ao longo de muitas hierarquias e autoridades governamentais e no setor privado.

Muito mais que questões legislativas, a corrupção também envolve questões culturais que se na Índia entrelaçam casta, conexões (diz-se contatos pessoais) e poder impostos e mantidos pelo sistema de castas, além da religião e de regionalismos.

Assim como no Brasil, governos cercados de escândalos, propinodutos e cartéis que ditam o funcionamento de concessões e licitações de serviços públicos despertam nada mais  que apatia e descrédito perante a população. De um outro lado, nada se faz para buscar uma outra realidade…

A corrupção é o que trava de fato o crescimento da Índia

A corrupção é o que trava de fato o crescimento da Índia

É visível o desconforto que muitos indianos sentem ao lidar com as autoridades, sobretudo com policiais, que tem o poder, por exemplo, de parar qualquer condutor de veículo e fazer interrogatórios inúteis até achar um pretexto para negociar propina. A reação do cidadão abordado é aquele “puta merda!”

O mesmo se repete com outras autoridades, que tem poder para atenderem o cidadão da forma que bem entendem, como e quando quiserem; se quiserem! Se não, forçam a barra para propina, eis o porquê de eu não ter estendido o meu visto por lá, por exemplo. É justamente a corrupção que trava quaisquer melhorias ao país, seja a construção de obras que melhorem a infraestrutura ao longo do país, seja a construção de hospitais e escolas – os montantes de dinheiro que deveriam ser investidos na melhoria das condições de vida dos cidadãos indianos são gastos em luxos e extravagâncias pessoais, como se vê no Brasil.

Mas qual a solução? Tal qual no Brasil, a corrupção na Índia se sustenta em valores aceitos e cultivados que mantêm condutas destrutivas ao bem-estar de qualquer sociedade, como ensinar uma criança a mentir a idade na estação de trem para não pagar a passagem, tentar sobretaxar estrangeiros, etc. Como bem escreve Chetan Bhagat, indianos devem aprender a pensar como indianos e a escolher quem seja capaz de fazer o melhor pela Índia, ao invés de pensar limitadamente à casta, à religião, ao estado ou etnia – e ainda usar estes fatores como critérios de voto.

Anúncios

Ativar o próprio destino

Bom, este post é uma tradução de um artigo que tinha escrito para wespeaknews.com, site de citizen journalism em que trabalhei na Índia.

A sociedade indiana tem atravessado muitas mudanças nos últimos 20 anos, especialmente com a abertura do país através da liberalização econômica. Mais que proporcionar acesso a bens e serviços para muitos indianos, a liberalização também abriu a cabeça de muitos indianos.

Como bem descreve o especialista em marketing Dheeraj Sinha no seu livro Consumer India – inside the indian mind and wallet, a cultura indiana tem sido guiada tradicionalmente – e de uma forma incontestável por milênios – por valores como espiritualidade sobre o materialismo, substância sobre o superficial, ser correto ao invés de oportunista; os quais refletem a prevalência do pensamento brâmane (o mais alto grupo de casta, cuja função social é manter a custódia dos sacramentos religiosos) na sociedade indiana.

Mas ao longo da liberalização comercial, o mercado consumidor na Índia tem encontrado espaço no pensamento xátria (grupo de casta ao qual pertence os guerreiros e militares) como propulsor, assim como as mudanças sociais e culturais que emergiram no país nos últimos anos. Sobre o pensamento xátria, a sociedade indiana vem se abrindo a valores como competitividade, glória, honra, sucesso, tomar iniciativa; possível de perceber na forma como muitas marcas e empresas se comunicam atualmente com os seus públicos, sobretudo com os jovens.

Interior de uma casa noturna em Mumbai

Balada em Mumbai. Embora não seja parte da cultura indiana, as baladas nos centros urbanos é uma evidência da Índia moderna.

E como parte dessa migração gradual de paradigmas – digamos assim -do pensamento brâmane ao pensamento xátria, é possível ver, ainda que sutil, uma reinterpretação do conceito de “karma“. Tal reinterpretação significa adotar este conceito numa perspectiva ativa, ao invés da tradicional perspectiva passiva. A idéia “karma” continua ligada ao destino de uma pessoa, mas este mesmo destino pode ser alterado assim que uma nova perspectiva abre caminho a um novo leque de ações que, enfim, possibilitam um diferente destino.

Um dos exemplos dessa reinterpretação do “karma” é visto entre muitos jovens indianos, especialmente nos centros urbanos, que mostram a sensação de tomar as rédeas do próprio destino, de não enxergar limitações impostas pela casta, por exemplo. A idéia de ativar o próprio destino através de ações individuais é um dos principais códigos culturais emergentes na atual sociedade indiana. Com oportunidades que as gerações anteriores nem sequer poderiam sonhar, os jovens indianos não vêem limitações para realizar seus sonhos e viver a sua vida fora do círculo e das pressões familiares.