5 minutos, 5 minutos indianos e 5 minutos egípcios

São 16:00 h e um indiano ou egípcio fala que vai chegar dentro de 5 minutos. A que horas você imagina que ele/ela chegará? Às 16:05 h? Hahaha, normalmente não.

Na lógica de muitos indianos ou egípcios, estes 5 minutos acabam se passando em 40 minutos, 1 hora, 2 horas ou muito mais que isso…Pontualidade não é comum em ambos os países. Mas por quê?

Porque na maior parte da Ásia e do Oriente Médio – e vamos incluir também Brasil e América Latina – as pessoas não têm uma percepção de tempo linear, não regulam a sua rotina com base em horários fixos. Em muitas destas culturas, momentos são desfrutados e vividos como únicos, e a vida – assim como as coisas mais simples na rotina de um cidadão – se leva ao sabor do destino ou do “maktub“. A vida é percebida como algo muito mais amplo que trabalho, estudos, compromissos… Ou seja, nessa percepção de tempo a vida não cabe numa agenda.

Na maior parte da Ásia e do Oriente Médio, o tempo passa ao sabor do destino e dos momentos

Na maior parte da Ásia e do Oriente Médio, o tempo passa ao sabor do destino e dos momentos

Da mesma forma, é interessante notar como a dinâmica tempo e rotina passa de um modo incontrolável. Imprevistos e surpresas acontecem a toda hora, nunca se sabe o que vai acontecer nas próximas horas, e nunca existe um dia igual ao outro, nunca mesmo! Rotina é algo que não existe!

Estrangeiros costumam não entender e ter dificuldades em se adaptar a essa diferente percepção de tempo, sobretudo europeus e norte-americanos. Reclamar e fazer julgamentos jamais serão caminhos para a solução, pelo contrário, levam ao isolamento da cultural local e a reações inconvenientes. Posso dizer que o melhor de tudo é surfar os imprevistos como faz qualquer pessoa que se criou naquela dinâmica. (…) Don’t you worry, don’t you worry child, See heaven’s got a plan for you! (…)

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Egípcios e o complexo de colonizado

Desde que cheguei ao Egito, algo tem me surpreendido muito: o fato de muitos egípcios, sobretudo nas classes mais altas, renegar o seu próprio país e a sua própria cultura. Eles vivem em áreas nobres da cidade, dirigem belos carros, estudam em caríssimas universidades privadas, têm tudo para levar o país a melhores horizontes, mas vivem com as suas cabeças nos EUA e na Europa. É o famoso complexo de colonizado!

Sinceramente, jamais imaginei isso, com a imagem do país ligado à Revolução durante a Primavera Árabe e ao fato de os árabes serem muito orgulhosos de seu passado e de suas tradições.

A maior revolução que pode acontecer no Egito é os egípcios tomarem de fato as rédeas do país, ao invés de copiarem tudo de fora.

A maior revolução que pode acontecer no Egito é os egípcios tomarem de fato as rédeas do país, ao invés de copiarem tudo de fora.

Desde que pisei no Egito, tenho percebido que muitos egípcios se sentem “cool” andando com estrangeiros (não é só no Egito que isso acontece, mas o que há de especial nisso?), consumindo importados e adotando estilos de vida europeus e norte-americano.

Além disso, muitos egípcios também sentem vergonha da cultura popular egípcia, como comer koshary ou tammeya, ouvir as músicas shaaby…. E tenho lidado com reações como “tá brincando que gosta de ouvir essa porcaria?” ou “isso é música de classe baixa!”, referindo-se à shaaby. Eu não vim ao Egito para comer McDonald’s ou tomar café no Starbucks, posso fazer isso até no Brasil. Eu quero ver coisas egípcias, eu quero shisha, koshary  e outras coisas que só posso achar no Egito, assim como conhecer o Egito como realmente é: pegar micro-ônibus, comer nas ruas, pegar metros, trens, estar em contato com egípcios que vivem esta realidade do país.

É também curioso com muitos egípcios nas classes mais altas usam os estilos de vida europeu e norte-americano como um capital social, como um meio de se distinguir das outras classes. É também curioso notar que cafés e fast-foods como McDonald’s e Cilantro (uma rede de cafés egípcia) se posicionam como locais onde seus clientes podem viver a experiência de estar “fora do Egito”, em oposição à tradicional ahwa, onde se vai para tomar chá e fumar shisha/narguilé, lugar normalmente frequentado por homens. Normalmente não veem mulheres numa ahwa, mas em cafés com estilos ocidentais é possível ver mulheres fumando shisha e/ou cigarros (mulher fumar em público não é aceitável para muitos egípcios).

Entendo estes aspectos da cultura egípcia e respeito. Mas o Egito será um melhor país quando os egípcios buscarem soluções para seus problemas na sua própria cultura, ao invés de copiar e colar modelos de fora! O Egito pode ser um país moderno com shisha e koshary, eis a minha opinião!