Índia, sexo e Kama Sutra

A sociedade indiana é em geral conservadora e muitos assuntos presentes no nosso cotidiano são um tabu e tanto entre os indianos, entre estes sexo. Oh se não é tabu!

Muitos jovens indianos crescem naquela educação rígida típica de interior, como também se vê no Brasil… Chegam à idade adulta sem nenhuma experiência de vida e muito menos maturidade. Logo, é comum ver jovens indianos de 20 e poucos anos agindo como “crianções”, sobretudo em se tratando de assuntos como sexo e relacionamento.

Ao contrário do que muita gente pensa, o Kama Sutra não é só um manual de posições sexuais

Ao contrário do que muita gente pensa, o Kama Sutra não é só um manual de posições sexuais

É curioso que uma obra como o Kama Sutra tenha sido escrita num ambiente como esse, que não parece dos mais propícios. Mesmo indo a fundo pela rica e extensa história da atual Índia é difícil achar explicações de como surgiu o Kama Sutra (caso alguém possa me esclarecer, estou aberto para isso). Muitos indianos a quem perguntei me responderam  e não me disseram nada que esclarecesse, em tons não muito à vontade ao se tratar de sexo.

Até que numa viagem a Jaisalmer com um grupo de amigos, visito um museu da cidade e pude conversar com um senhor brâmane (grupo de casta mais alto cuja função é resguardar os ensinamentos do Vedas) que explicou sobre o propósito do Kama Sutra, basicamente educação sexual.

Parece loucura eu sei, um livro que diz como se faz sexo e em quais posições (pelo qual o livro é tão famoso), com que tipo de pessoa manter relações sexuais…e por aí vai. Mas numa sociedade conservadora, é um dos poucos meios de colocar as pessoas direto ao que interessa, se entende o que quero dizer!

Num contexto social ditado por castas, o Kama Sutra envolve etiquetas na vida íntima e na vida social, tratando desde como agir nas preliminares até condutas após a transa. Isso mesmo! Bom, a melhor parte da conversa com o senhor brâmane foi que pude comprar uma versão do Kama Sutra que há tempos vinha procurando… Falando nisso, tá na hora de dar umas folheadas novamente.

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Índia – Apego à família

Uma das coisas que mais me chamou atenção durante o tempo em que estive na Índia foi o quanto os indianos são apegados às suas famílias. E como são!

Na foto, avó e neto. Ambos são da família que mantém um dos principais templos de Jaipur há mais de 300 anos

Na foto, avó e neto. Ambos são da família que mantém um dos principais templos de Jaipur há mais de 300 anos

A sociedade indiana é centrada na família, cujo nome sinaliza a casta a que pertence, assim como o poder e as conexões possibilitadas pela casta. Na Índia, não se vê a ideia de “negócios à parte”; pelo contrário, amizade, negócios, política e sobretudo, famílias se misturam e formam as teias de conexões que regem as “regras” no país.

Famílias controlam a política (a exemplo do nome Gandhi), os negócios e até Bollywood! Basta olhar os astros e estrelas com nomes Kapoor, Khan, Bacchan, entre outros que compõem os clãs da indústria de bollywood.

A maioria dos indianos jamais saiu e jamais sairá de seu país devido ao apego à família. Alguns me perguntaram como (nós estrangeiros) saímos de nosso país, longe de casa por um bom tempo… Para muitos indianos, isso nem sequer passa pela cabeça, não temos a ideia de quanto é traumático para eles ficar longe da família, nem que seja por um curto espaço de tempo. Não vamos nem falar então de conflitos e pressões familiares…

Nas casas indianas, costumam viver a família núcleo e a família extensa, com tios e tias, primos e primas e avós, geralmente paternos; e assim que casam, as mulheres passam a viver com a família do marido. Nas parcelas mais ricas da população, vêem-se casas de 3, 4 ou 5 andares; e nas mais pobres, dezenas de pessoas dividindo um pequeno espaço. Até nas metrópoles, é possível ver famílias ricas comprando andares e até prédios inteiros. Assim é a vida, opa indian style!

Egípcios e o complexo de colonizado

Desde que cheguei ao Egito, algo tem me surpreendido muito: o fato de muitos egípcios, sobretudo nas classes mais altas, renegar o seu próprio país e a sua própria cultura. Eles vivem em áreas nobres da cidade, dirigem belos carros, estudam em caríssimas universidades privadas, têm tudo para levar o país a melhores horizontes, mas vivem com as suas cabeças nos EUA e na Europa. É o famoso complexo de colonizado!

Sinceramente, jamais imaginei isso, com a imagem do país ligado à Revolução durante a Primavera Árabe e ao fato de os árabes serem muito orgulhosos de seu passado e de suas tradições.

A maior revolução que pode acontecer no Egito é os egípcios tomarem de fato as rédeas do país, ao invés de copiarem tudo de fora.

A maior revolução que pode acontecer no Egito é os egípcios tomarem de fato as rédeas do país, ao invés de copiarem tudo de fora.

Desde que pisei no Egito, tenho percebido que muitos egípcios se sentem “cool” andando com estrangeiros (não é só no Egito que isso acontece, mas o que há de especial nisso?), consumindo importados e adotando estilos de vida europeus e norte-americano.

Além disso, muitos egípcios também sentem vergonha da cultura popular egípcia, como comer koshary ou tammeya, ouvir as músicas shaaby…. E tenho lidado com reações como “tá brincando que gosta de ouvir essa porcaria?” ou “isso é música de classe baixa!”, referindo-se à shaaby. Eu não vim ao Egito para comer McDonald’s ou tomar café no Starbucks, posso fazer isso até no Brasil. Eu quero ver coisas egípcias, eu quero shisha, koshary  e outras coisas que só posso achar no Egito, assim como conhecer o Egito como realmente é: pegar micro-ônibus, comer nas ruas, pegar metros, trens, estar em contato com egípcios que vivem esta realidade do país.

É também curioso com muitos egípcios nas classes mais altas usam os estilos de vida europeu e norte-americano como um capital social, como um meio de se distinguir das outras classes. É também curioso notar que cafés e fast-foods como McDonald’s e Cilantro (uma rede de cafés egípcia) se posicionam como locais onde seus clientes podem viver a experiência de estar “fora do Egito”, em oposição à tradicional ahwa, onde se vai para tomar chá e fumar shisha/narguilé, lugar normalmente frequentado por homens. Normalmente não veem mulheres numa ahwa, mas em cafés com estilos ocidentais é possível ver mulheres fumando shisha e/ou cigarros (mulher fumar em público não é aceitável para muitos egípcios).

Entendo estes aspectos da cultura egípcia e respeito. Mas o Egito será um melhor país quando os egípcios buscarem soluções para seus problemas na sua própria cultura, ao invés de copiar e colar modelos de fora! O Egito pode ser um país moderno com shisha e koshary, eis a minha opinião!

Ativar o próprio destino

Bom, este post é uma tradução de um artigo que tinha escrito para wespeaknews.com, site de citizen journalism em que trabalhei na Índia.

A sociedade indiana tem atravessado muitas mudanças nos últimos 20 anos, especialmente com a abertura do país através da liberalização econômica. Mais que proporcionar acesso a bens e serviços para muitos indianos, a liberalização também abriu a cabeça de muitos indianos.

Como bem descreve o especialista em marketing Dheeraj Sinha no seu livro Consumer India – inside the indian mind and wallet, a cultura indiana tem sido guiada tradicionalmente – e de uma forma incontestável por milênios – por valores como espiritualidade sobre o materialismo, substância sobre o superficial, ser correto ao invés de oportunista; os quais refletem a prevalência do pensamento brâmane (o mais alto grupo de casta, cuja função social é manter a custódia dos sacramentos religiosos) na sociedade indiana.

Mas ao longo da liberalização comercial, o mercado consumidor na Índia tem encontrado espaço no pensamento xátria (grupo de casta ao qual pertence os guerreiros e militares) como propulsor, assim como as mudanças sociais e culturais que emergiram no país nos últimos anos. Sobre o pensamento xátria, a sociedade indiana vem se abrindo a valores como competitividade, glória, honra, sucesso, tomar iniciativa; possível de perceber na forma como muitas marcas e empresas se comunicam atualmente com os seus públicos, sobretudo com os jovens.

Interior de uma casa noturna em Mumbai

Balada em Mumbai. Embora não seja parte da cultura indiana, as baladas nos centros urbanos é uma evidência da Índia moderna.

E como parte dessa migração gradual de paradigmas – digamos assim -do pensamento brâmane ao pensamento xátria, é possível ver, ainda que sutil, uma reinterpretação do conceito de “karma“. Tal reinterpretação significa adotar este conceito numa perspectiva ativa, ao invés da tradicional perspectiva passiva. A idéia “karma” continua ligada ao destino de uma pessoa, mas este mesmo destino pode ser alterado assim que uma nova perspectiva abre caminho a um novo leque de ações que, enfim, possibilitam um diferente destino.

Um dos exemplos dessa reinterpretação do “karma” é visto entre muitos jovens indianos, especialmente nos centros urbanos, que mostram a sensação de tomar as rédeas do próprio destino, de não enxergar limitações impostas pela casta, por exemplo. A idéia de ativar o próprio destino através de ações individuais é um dos principais códigos culturais emergentes na atual sociedade indiana. Com oportunidades que as gerações anteriores nem sequer poderiam sonhar, os jovens indianos não vêem limitações para realizar seus sonhos e viver a sua vida fora do círculo e das pressões familiares.